Chamada de Artigos para o Dossiê “Múltiplas escritas da história: implicações das diferentes formas de representação histórica”

2022-05-11

Chamada para o Dossiê nº 2  (Vol. 11, 2022)

Prezados autores, 

A revista História e Cultura, em conjunto com os organizadores Prof. Dr. Rodrigo Gomes de Araujo (Doutorando em Historiografia pela Universidad Autónoma Metropolitana, México) e Prof. Dr. Tairon Villi (Doutorando e mestre em História pela UFPR), convida todos os membros da comunidade acadêmica a enviarem suas contribuições para o dossiê “Múltiplas escritas da história: implicações das diferentes formas de representação histórica

Os textos devem seguir nossas Diretrizes para Autores e devem ser encaminhados pelo sistema da revista até 11/09/2022. 

Atenciosamente,

Organizadores e revista História e Cultura

 

Resumo da proposta:

Desde as últimas décadas do século XX, a dimensão escrita da historiografia tem sido objeto da atenção acadêmica. Ainda que não seja uma novidade, pois, se buscássemos as origens das reflexões sobre a escrita da história, possivelmente regressaríamos até a Antiguidade com os textos de Tucídides. Mas, sem dúvida, nos últimos anos houve uma intensificação das pesquisas sobre os processos de narração histórica e suas implicações político-ideológicas.

            A partir da década de 1970, obras como Meta-História (1973) de Hayden White,[1] A escrita da história (1975) de Michel de Certeau[2] e Como se escreve a história (1971) de Paul Veyne,[3] passaram a questionar a objetividade das representações históricas, evidenciando que a historiografia é um tipo de produção de conhecimento parcial, subjetivo e determinado por diversos modelos socioculturais.[4] Também surgiram abordagens a partir dos estudos literários que evidenciaram uma vasta gama de determinações sociais amplamente complexas implicadas no processo de escrita, além de destacarem que as representações históricas são práticas e produtos subjetivos, carregados de intencionalidades. Livros como Poética do pós-modernismo (1988) de Linda Hutcheon[5] e La nueva novela histórica de la América Latina (1993) de Seymour Menton[6] focaram no modo em que as produções literárias se apropriam de modelos e técnicas narrativas historiográficas para (re)pensar o passado.  

            E esses questionamentos não se restringiram à historiografia e à literatura, também o cinema tem apresentando produções e estudos sobre o assunto, como o livro A história nos filmes, os filmes na história (2006) de Robert Rosenstone.[7] Os exemplos aqui citados são pontuais, mas longe de ser exceção, expressam um amplo panorama associado ao giro linguístico posterior aos anos de 1960,[8] em que se passou a interpretar que qualquer forma de representação é insuficiente para abarcar as múltiplas facetas das sociedades. Mais que isso, as representações, sejam escritas, audiovisuais, ou de qualquer outra forma, se estruturam como um duplo processo em que sua elaboração passa por códigos cognitivos e sociais, e o conhecimento se estrutura a partir do diálogo entre os indivíduos que o produzem e as sociedades em que estão inseridos.[9]     

            Atualmente, muitas noções usadas até o final do século passado parecem haver perdido sua funcionalidade. Entre elas, as ideias de ficção e não ficção cruzaram suas fronteiras conceituais.[10] E, se por um lado, a produção artística se apresenta como representação social, plena de intencionalidades, atuando em construções políticas e ideológicas.[11] Por outro, a escrita historiográfica reconhece ser uma forma discursiva que compartilha os recursos narrativos subjetivos de distintas formas de arte, como a literatura e o cinema.  

            Com este dossiê temático, propomos abordar as interações presentes no cruzamento entre história, arte e sociedade a partir da análise das representações, que tanto atravessam como unem essas três dimensões. Nosso objetivo é discutir a narrativa em um sentido amplo, superando a separação entre o ficcional e o historiográfico, e refletir sobre as representações históricas em suas variadas formas de atuação na sociedade.

            Com base nessas discussões, convidamos o público acadêmico a refletir sobre as relações entre as representações que se ocupam da história no mundo contemporâneo, com foco na pluralidade de modos de se posicionar política e ideologicamente, seja um discurso historiográfico, literário, audiovisual ou de outras formas que possam assumir. Assim, para este dossiê, são bem-vindas as reflexões, tanto teóricas como análises de casos particulares, que desenvolvam abordagens das múltiplas formas de representação histórica em suas historicidades particulares.

 

[1] WHITE, Hayden. Meta-história: A imaginação Histórica do Século XIX. São Paulo: Editora da USP, 1995.

[2] CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

[3] VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Lisboa: Edições 70, 1971.

[4] CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 24.

[5] HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago Edições, 1991.

[6] MENTON, Seymour. La nueva novela histórica de la América Latina:1979-1992. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1993.

[7] ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

[8] RORTY, Richard (ed.). The Linguistic Turn: essays in Philosophical Method with two retrospective essays. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

[9] MOSCOVICI, Serge. Social Representations. Explorations in Social Psychology. Cambridge, UK: Polity Press, 2000. CHARTIER, Roger, “O mundo como representação”. In: À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da UFRGS, p. 61-79, 2002.

[10] GARRAMUÑO, Florencia, Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea, Rio de Janeiro, Rocco, 2014. LUDMER, Josefina, Literaturas postautónomas, Ciberletras. Revista de Crítica Literaria y de Cultura, n. 17, jul. 2007. 

[11] RANCIÈRE, Jacques, El reparto de lo sensible. Estética y política, Santiago, LOM Ediciones, 2009.